O degelo de uma tamareira


Em uma tarde dessas, uma idosa puxou assunto comigo na parada de ônibus. Aqueles assuntos que puxamos quando estamos há muito tempo com os pés plantados no mesmo lugar. E estávamos mesmo. Nessa altura, parecíamos duas tamareiras esperando para dar frutos. Ela, no entanto, aparentava idade suficiente para começarem a colher os seus. Mesmo assim, isso não a impediu de também ser deixada para depois, à mercê de um motorista de ônibus qualquer.

— Tá demorando, né? Já passaram dois pra lá e nada de voltarem.

Pausei a música e tirei um dos fones de ouvido. Perguntei:

— Dois ônibus?

— Sim. E o 675R agora só vai até o Shopping Interlagos, sabia?

Não, eu não sabia disso. Mas, imediatamente, fui tomado por uma vontade de saber. E agora eu era todo ouvidos.

Eu gostava disso, de ficar por dentro das coisas que chamavam minha atenção. Buscava ficar atento aos detalhes, fosse pelo tom de fofoca, pela curiosidade quase infantil ou até mesmo pela necessidade de controle. Ouvi de alguns (minha terapeuta) que tenho medo de mudanças. Seria a alteração da rota de um ônibus gatilho tão poderoso assim? Para mim, era mais divertido pensar que tenho a incrível habilidade de me interessar genuinamente por qualquer assunto que eu queira. Tudo soa imperdível quando há disposição para se interessar. Mas, talvez, fosse apenas pela forma meiga como a idosa me olhou ao perceber que eu lhe dera atenção. Eu sei, é uma droga ser sentimental. Esse sentimentalismo bobo já fez com que eu me colocasse demais à disposição das pessoas, só por sentir que devia. Mas a maioria das vezes que escutei uma pessoa idosa, nunca pareceu ter sido em vão.

É comum a gente ignorá-los no dia a dia. Nós os tratamos como um almanaque antigo congelado no tempo. Dar atenção demais significava iniciar o degelo das histórias de uma época distante e pouco interessante. Ninguém que sobreviva de vídeos curtos tem muita paciência para ouvi-los contar, em ritmo lento, sobre a vida que levavam quando andavam mais rápido. Era uma época em que se vivia o cotidiano com menos gifs de gatinhos e memes virais, e com mais demora e espaço. O que explica a quantidade de histórias contadas em minúsculos cinco minutos de conversa. Para eles, era como se o amanhã fosse apenas uma lenda, e tudo que não foi dito precisasse ser dito nesse instante.

A velhice é a primavera da vida, e os idosos são essas árvores frutíferas, dando os frutos da sua colheita para quem nem sempre quer desfrutá-los. Porque, no fim das contas, nós somos as histórias que temos para contar. Como uma pessoa fluente em qualidade de tempo, eu estava ciente de tudo isso e queria continuar. Não é todo dia, afinal, que alguém que deseja falar encontra alguém que quer ouvir. Parecia coisa de destino. Então, olhei no fundo dos olhos dela e, como se isso significasse um gesto de consentimento, o degelo se iniciou.

— Eu pego esse ônibus sempre que venho visitar meu filho. Ele mora ali para baixo do Sesc e estou voltando de lá com essa marmitinha, porque eu não aguento comer tudo. Não faço comida em casa, só faço café. É minha neta que cozinha. Ela mora comigo, mas agora está trabalhando até nos sábados! Vive numa correria, menino! Mas não dá pra reclamar. Eles pagam direitinho. Só era melhor ser diarista porque recebe ali na hora, sabe?

Não, eu não sabia disso.

— Eu já trabalhei por muito tempo como diarista. Ela aprendeu comigo. Mas eu chegava do trabalho e era mais explorada dentro do que fora de casa. O marido não fazia nada. Imagina? Casados por quatro anos e acredita que, nesse tempo todo, ele nunca me levou nem uma mísera vez ao cinema?

Não, eu não acreditava nisso!

— É, menino. Eu me arrependo tanto de ter casado com ele. Sinto que foi um tempo perdido de tão amargurada que fiquei. Ainda tô. Eu me pergunto o que fiz para merecer isso? Será que eu era uma pessoa tão ruim assim? Se eu fosse, Deus já podia ter me levado. Tenho 82 anos. Vou fazer o que ainda aqui, se for pra sofrer essas ruindades?

Subitamente, a idosa começou a chorar. As emoções emergiram rápido demais para continuar verbalizando, então as palavras jorravam pelos olhos. Chorava de ficar vermelho o branco do olho. Mal podia enxugar as lágrimas, pois segurava sua quentinha com uma mão e a outra, reparei, parecia inchada por algum motivo. Então fiz a gentileza de segurar para ela. Não tentei consolá-la. Achei que podia ser contraproducente. Quando uma enxurrada vem, ninguém tenta conter a água, a correnteza invade e leva tudo. É a sequência natural dos acontecimentos, e eu preferi me ater a isso. E pela quantidade de coisas que despejara, meu coração sentimental e eu já tínhamos sido arrastados há muito tempo.

Agora, mais calma, ela me contou o que aconteceu com sua mão. O inchaço era resultado de uma queda que teve em fevereiro. Retirara o gesso na última sexta-feira, muito a contragosto do médico. No que dependesse dele, ela ainda estaria com o braço engessado. Julgava-o autoritário por insistir que ficasse imobilizada, à mercê de uma cura que tardava em acontecer.

Naquele instante, nosso ônibus chegou. Eu imaginava que sua chegada marcaria o fim da nossa conversa, por isso eu estava pronto para me despedir dela. Devolvi a quentinha enquanto procurava lugares vagos lá no fundo, com a expectativa simples de sentar e retomar minha playlist, mas o imprevisível aconteceu. Antes que eu pudesse sacar o cartão e passar a catraca, ela tocou meu braço e perguntou:

— Não quer sentar aqui comigo?

E novamente aquele olhar.

Sentados lado a lado no assento preferencial, conversávamos sobre o trajeto. Ela me contou onde morava e onde deixara de morar. Apresentou os pontos de referência antigos que preenchiam a paisagem, coisa que só quem viveu há mais de 50 anos em São Paulo saberia. Lembro de ter pensado que meus três anos de vivência na capital eram um panfletinho para ela, que possuía uma robusta enciclopédia, com seções especiais dedicadas à Zona Sul. Apontou para a paróquia do Padre Marcelo Rossi e confessou não gostar dele.

— Por quê?

— Só pensa em "$" – me disse ao pé do ouvido, esfregando o dedão no indicador.

Quando ela finalmente perguntou meu nome, falou que o filho de algum parente da família do marido da sobrinha dela tinha o nome igual.

— Ele é bonito?

— Uma lindeza! Tá um moço já.

— Todo Erick é lindo mesmo.

Eu também quis saber o nome dela.

Pompeia¹ – respondeu.

— Nossa, que nome chique! Achei pomposo.

— Que nada. Nome véi feio, gosto não. "Pompeia" – pronunciou espremendo a cara, como se seu próprio nome tivesse gosto de limão e azedasse à boca.

Nós rimos.

Fosse pela conversa amigável ou pelo motorista se sentir protagonista de Velozes e Furiosos, o percurso foi mais rápido do que esperávamos. Logo, a senhora Pompeia sinalizou que ia descer no próximo ponto, mas o farol fechou antes. Então, ela pediu ao motorista que abrisse a porta ali mesmo, na esquina daquele cruzamento.

— Tchau, Erick!

Foi se despedindo, a dona Pompéia. Passei a catraca e me sentei lá no fundo. O sinal finalmente abriu. No momento em que me viu na janela, ela acenou para mim, sorrindo com todas as rugas do rosto. Procurei os fones de ouvido e encontrei em vez disso um punhado de tâmaras caindo do meu bolso.

Obrigado pela colheita, Dona Pompeia!



¹Pompeia: antiga cidade do Império Romano, situada perto de Nápoles, Itália. Foi soterrada pelo vulcão Vesúvio em 79 d.C. e preservada por cinzas, tornando-se um sítio arqueológico crucial. A maior importância de Pompéia é como fonte histórica de dados sobre o cotidiano, comércio e arquitetura da Roma Antiga. É conhecida como a "cidade que parou no tempo".

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