o olho 👀
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A presença silenciosa tem a minha forma e as minhas medidas em altura e proporção. Veste as mesmas roupas que visto o tempo todo. Nas mãos dela a mesmíssima coisa que seguro em minhas mãos. Se eu tiro a roupa, numa piscadela ela já está sem. Se escolho outra coisa para vestir já está como um gêmeo, magicamente trajada com a mesma escolha também. Mas sem nunca me criticar. Sem nunca me questionar. Eu a comparo com um vouyer, aqueles que se contentam em ser expectador do tesão alheio. Mas, enquanto me assiste, ela não se excita de jeito algum. Não nutre um pingo de interesse pelas minhas ereções. Não faz questão de gozar comigo nem fetichiza qualquer característica do meu corpo. Minha boca é um nada para ela. Meus pêlos valem menos ainda, interessando-se apenas pelo conjunto da obra da minha vida, aquilo que me torna inteiro de corpo, mente e coração. Não quer nada, não aceita nada, além da oportunidade de me oferecer sua atenção exclusiva para qualquer coisa que eu queira fazer, viver, sentir e ser. Parece um tipo de prazer que não se engaja pelas coisas da carne, e sei lá se goza pelas coisas da alma. Uma espécie de satisfação resumida em me observar, de forma íntima e permanente, vivendo como sou e sendo como posso. Mas sem nunca me invadir. Sem nunca querer menos de mim.
Muitas vezes me perguntei quem eu realmente sou e não obtive ainda resposta definitiva. O ser humano é assim, esquisito, desconfiado, insatisfeito. O ser humano é uma verdadeira armadilha. Pergunta a si e não se responde e, se tem coragem para se responder, não gosta do que escuta de si. Isso quando realmente se escuta, porque ouvir e escutar são coisas bem diferentes, isso quando realmente se dedica em se autodescobrir. Talvez a autodescoberta não seja para todos, mas meu sonho é que seja. Meu sonho é que todos subam a montanha de si, que se escalem e que cheguem ao topo e vejam desvelarem as paisagens mais lindas do próprio ser até perdê-lo de vista, para se demorarem em se conhecer sem ter pressa de tantas certezas. Para quê tantas certezas se ainda não descobrimos nada novo nessa vida que seja definitivo, conclusivo, acabado; se as únicas coisas que se encerram em certeza são a morte e a vida? Por isso, escalem. Escalem enquanto há vida. Viajem para dentro de si até perceberem a mesma presença que percebi desde pouco tempo, presença essa que me viu chegar ao topo e que também assistiu a minha queda morro abaixo, me ralando todo. Mas sem nunca rir de mim. Sem nunca me pôr para baixo ou para cima. Sem nunca ser tão maldoso ao ponto de querer me redimir do suposto pecado de ser quem acho que sou.
Sempre desejei alguém que me fizesse sentir menos sozinho, que se interessasse por mim tanto quanto eu quisesse, porque também posso ser egoísta e insatisfeito assim. Também posso ter o olho virado para dentro de mim. E agora, presente de corpo inteiro e sendo capaz de me observar onipresente e onisciente, sem qualquer tipo de pretensão, eu me encontrei e estou tornando a me perder. Sou assim desde então.
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