ritíssima 👑

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Morreu alguém que eu amava. Agora sei que é verdade o que dizem: abre-se mesmo um buraco no peito de quem ficou, mais ou menos do tamanho da saudade que se sente por quem partiu. O corpo entra num estado de suspensão, como se ficasse rarefeito, e os sentidos, entorpecidos. Tem mais: o peito dói todo dia com pontadas que te pegam de supetão. As noites ficam compridas, o travesseiro vira lenço e dá um certo medo de dormir, porque dormir é ridiculamente parecido com morrer. Não estou delirando. Comece a perceber o dia como um fractal da sua vida inteira e vai entender as semelhanças. Sei que Câncer está no meu ascendente e lua, trazendo fortes inclinações ao drama, mas a angústia silenciosa que pisa no meu peito não me deixa mentir sobre nada agora e nem consegue me impedir de falar apaixonadamente. Eu apenas deito, com medo mesmo, e sinto a falta dela – Ritíssima.

Se é verdade que a morte é um descanso, talvez você preferisse viver cansada. É a minha aposta. Claro, as dificuldades que enfrentou tentaram negar seu acesso a todas as coisas capazes de nos revigorar e dar sentido à nossa vida (a alegria, o conforto, o bem-estar). Mas você não se deixou definir pela dor e sofrimento. Então, a morte jamais seria capaz de te recompensar com o tal descanso merecido, simplesmente, porque você não a merecia. A Vida ainda te queria para ir e multiplicar, senão sua existência não teria sido, por ironia do destino, sinônimo de fertilidade. Você, Ritíssima, pulsava vida – vida em abundância (daí o apelido carinhoso e superlativo que te dei).

Você veio para manifestar o amor. Pergunte a qualquer pessoa que foi pega de surpresa pela notícia do seu falecimento no Facebook, e ela dirá o mesmo. Você era insistente – como a própria Vida. Colocava o corpo a serviço do sonho, como se ele fosse a primeira ferramenta para torná-lo real. Intuía, através das emoções, o caminho para transcender a simples imaginação. Ritíssima, você vivia o sonho e, ao fazer isso, inspirava outras pessoas a viverem os seus também.

Coisas nascem a partir da Vida para serem desfrutadas em vida, você sabia disso, pois da sua vida afloravam sonhos sedentos de realização. Você foi capaz de enxergar a luz até no caminho mais escuro e espalhou amor como se fosse dona de um estoque ilimitado à disposição de todos que cruzassem seu caminho. Sonhava simples, mas ardentemente – com a casa própria, o carro novo, um emprego que conservasse a saúde mental, com a maternidade... Agora que você partiu, minha alegria é dizer que pude testemunhá-la dando à luz esse último sonho. Eis a história mais especial que vivi com a minha amiga.

Trabalhávamos juntos no novíssimo prédio comercial de Arujá. Rita fazia parte da equipe de limpeza, e eu cuidava do controle de acesso das pessoas. Era um emprego que eu detestava, vivia imaginando como seria fazer qualquer outra coisa da minha vida e mentalizava isso com força, como um alquimista em busca de transmutar o mundo externo e o próprio mundo interior. O meu instrumento? As afirmações positivas que aprendi a fazer com um livro sobre Lei da Atração. Com meu Sol em Peixes, me divirto muito aprendendo e aplicando crenças de outras religiões ou linhas de pensamento. Minha espiritualidade é uma colcha de retalhos.

Rita sonhava em ter um filho, mas, por ser diabética, enfrentava muitas dificuldades para engravidar. E, você sabe, mesmo que a gravidez desse certo, o risco de complicações era alto – dos mais graves. Isso a deixava constantemente preocupada e, aos poucos, começou a desacreditar do próprio sonho. Já havia sofrido vários abortos espontâneos e sentia que tinha chegado ao seu limite. Então, um dia, veio a notícia: estava grávida novamente. Mas, em vez de alegria, sentiu um medo imenso que a deixou completamente desnorteada. E isso era péssimo. Sonhos precisam de um norte para encontrar o caminho da realização – e o coração de Rita, nesse momento, não conseguia se orientar. Ela já não queria mais se apegar à esperança, pois temia não suportar mais um fim.

A gente conversava sobre isso enquanto ela deslizava o esfregão pelo hall de entrada. Ela se aproximou arrastando o MOP e me pediu – quase implorando – que eu também fizesse afirmações positivas para o bebê dela. Me surpreendi com o pedido vindo da cristã mais fervorosa que já conheci, mas não questionei sua necessidade de testar algo diferente da sua fé. Afinal, acredito que Deus fala com a gente na língua que a gente entende e que é possível aprender novos idiomas para falar com Deus. Quando o assunto é fé, eu prefiro ser poliglota.

O método das afirmações positivas, no entanto, não é tão simples. Imaginar o sonho é fácil, qualquer pessoa consegue. Mas realizar o sonho exige disposição e disponibilidade para imaginar com clareza o processo de realização. Rita tinha ambas, mas ainda precisava da clareza mental necessária para deixar o medo de lado, acolher o luto das vidas que não conseguiu gerar e dar espaço a uma nova esperança.

Começamos por uma lista das coisas que ela não queria. Essa parte foi fácil. "Eu não quero sofrer outro aborto." "Eu não quero sentir medo de tentar gerar outro bebê." "Eu não quero me prender à dor e ao sofrimento". Em seguida, passamos a limpo a Lista do Não, transformando cada anotação negativa em uma frase afirmativa, formando a Lista do Sim. Se ela não queria sofrer outro aborto, o que realmente queria, então? "Quero que meu bebê nasça com saúde." "Quero que meu útero seja um lugar seguro." "Quero ser a mãe desse bebê."

Encontrar um norte para o sonho é aprender a cultivá-lo. É descobrir como ele funciona, o que ele demanda – exatamente como se cuida de uma planta, entendendo o que aquela semente precisa para desenvolver seu potencial de realização. Ritíssima entendeu isso. Abriu o coração para aperfeiçoar a qualidade do sonho que queria realizar. Com as afirmações positivas em mãos, passou a engajar sua fé diariamente, lendo em voz alta as frases feitas sob medida para ela. E não desistiu. Meses depois, Samuel nasceu. Prematuro, claro, com lábio leporino e algumas condições que o enviaram direto para a UTI. Mas, comece a perceber o sonho como metáfora para a vida e a única coisa que vai importar no fim das contas é: ele nasceu, e nasceu através de Ritíssima. Como uma deusa que se orgulha da própria criação, ela descansou.

O descanso nasce no corpo de quem se esforçou demais (ralou dobrado, lutou, correu, resistiu), pensou demais (enfrentou angústias, pressões, cobranças) e sentiu demais (viveu perdas, conflitos, amores difíceis). É uma maneira dos seres viventes dizerem: "Eu preciso respirar!" – e só respira quem tem a vida correndo nas veias. Rita descansou após fazer o trabalho que a realização de um sonho demanda. O descanso revigorou seu corpo, que fez gerar nova energia, que fez abrir espaço no seu coração fértil, que fez aflorar um novo sonho: cuidar do bebê que deixou a UTI e assisti-lo crescer.

Samuel, que significa "Deus ouviu", fez cinco anos e perdeu sua mãe há um mês.

A vida da Rita engoliu sua morte – e agora repousa na existência de quem conta sua história e naqueles que insistentemente buscam realizar seus próprios sonhos. E eu... Bem, eu choro com os que choram sua partida. E alimento o sonho de te reencontrar – quem sabe – quando eu começar a acreditar no pós-vida, numa vida para além desta, uma supervida, superlativa, Ritíssima.

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