Milena 🐱
Arquivo pessoal (11 de julho de 2025). |
Alguns gatos
parecem ilhas: isolados, distantes, de acesso quase restrito. Por isso meu ego
de gateiro ficou inflado quando a dona de uma gata arisca confessou: "Você
é uma das pouquíssimas pessoas que ela permite se aproximar".
A
aproximação em si já é tão difícil quanto atravessar o oceano em busca de um
tesouro perdido. Tem que ter mapa, bússola, a sorte de um mar que te mova sem
querer te afogar e, acima disso, cautela para ler e interpretar o que dizem os
ponteiros. Gatos são mesmo assim. E precisa-se quase das mesmas coisas para
acessar seu mundinho particular.
É
bastante complicado medir a paciência e a disposição deles para socializar com
humanos desconhecidos. Mais difícil ainda é garantir o afeto (se algum dia um
bichano qualquer roçar na sua perna, de repente, considere-se sortudo, pois não
é para qualquer um). Mas uma vez que a Zuzu deitou e rolou aos
meus pés e expôs a barriguinha, e ainda mais quando deixou acariciar aquela
bela pancinha, qualquer tesouro escondido que eu pudesse vir a encontrar virou
um nada perto do privilégio de ser um dos humanos favoritos do gato de alguém.
Dei
a ela o nome de Milena. Sim, sou desses que batiza com nome
personalizado o pet alheio. Pois eu tinha o plano de reunir a
versão felina da Turma da Mônica e isso era um propósito muito
maior que o nome (pouco criativo) que sua dona lhe dera. Me chamem do que
quiser, mas nada me impediria de cumprir essa missão.
Mônica,
Magali, Cebolinha, Cascão – o quinteto estava quase completo com os bichanos
que "adotei" pelos arredores. Faltava apenas a personagem pretinha
retinta que todo mundo adora. Faltava a Milena. Descobri que ela morava nessa
casa que faz esquina com o quarteirão pertinho de onde trabalho.
Ao
meio-dia, eu a encontrava na calçada, com seu pelo curto, escuro e sedoso,
parecendo ter ficado o tempo todo à minha espera. Ou talvez apenas
incomodava-se, como eu, com a ideia de passar o horário de almoço entre quatro
paredes. Se eu não a encontrava, sabia exatamente o que fazer. Acariciá-la,
afinal, virou rotina e essa rotina me tornou conhecido e querido por ela. A
Milena agora tinha o som do meu assobio como da família. Então, bastava um
silvo e lá vinha ela cruzando o portão em poucos segundos para me ver. Para
estar com aquele que foi condecorado por sua dona como Uma das
pouquíssimas pessoas escolhidas à pata por ela.
| Arquivo pessoal (30 de agosto de 2024). |
Nós,
humanos, temos o mau hábito de usar o tempo como métrica para o afeto. Como se
servisse para medir a qualidade, intensidade e durabilidade de algo que não se
mede ou entende. Acontece. Amamos porque amamos tal qual a flor que floresce
porque floresce. Por isso, o tempo nada garante e nada avalia. Ele só tem
interesse pela passagem. Sequer nos olha no olho. Damos bom dia ao tempo e ele
não responde, parece mal educado.
Desconfio
que, se o tempo tivesse pernas e nos percebesse caminhando apaixonados ou
desiludidos por qualquer coisa, ele atravessaria para o outro lado da rua. Se
tivesse ouvidos e nos ouvisse prometendo o "para sempre" ou
lamentando o rompimento, ele rapidamente os taparia. O tempo se esquiva das
nossas vaidades. Inicia e encerra ciclos sem fazer qualquer juízo de valor.
No
fundo, as pessoas sabem que o tempo não se interessa em garantir o afeto das
nossas relações. Talvez por esse motivo apostam tanto nos rótulos: pela
tentativa de assegurar que o que somos um para o outro é compromisso fixo e
imutável, que não se deve nunca encerrar.
Há
dois anos, conquistei o afeto da Milena. Mas, de uma hora para outra, estava
nítido que alguma coisa havia mudado na nossa relação. Um dia, eu a encontrei
na calçada e ela não aceitou mais o meu carinho. Pelo contrário, pareceu ter
desenvolvido um desgosto em me ver. Ficou desconfiada quando me aproximei dela
e me virou as costas de imediato, pulando portão adentro nitidamente assustada.
Em seguida, ficou um tempo me olhando com olhos perplexos como se perguntasse
"quem é você?". Como se procurasse alguma pista do humano por quem
ela tinha se afeiçoado e não encontrasse nenhum resquício. Ela estava com medo.
Medo de mim.
Nos
dias que seguiram, ela me deu o mesmo tratamento que até então reservava
àqueles por quem não nutria um pingo de apreço. Tornou-se novamente uma ilha.
Uma ilha gelada e desprendida, que flutuava no degelo para longe de mim. Foi
parar em algum lugar onde meu assobio não alcançava.
Eu
me senti arrasado.
Estou
certo de que os gateiros me entendem. Mas quanto a você, pessoa comum, desprovida
de carinho intenso pelos felinos, não sei se consegue entender como essa
situação partiu meu coração de gateiro. Por isso, vou tentar ilustrar de outra
forma. Parecia que eu era como aquele parente querido, o tio ou tia favorito de
alguém, que foi descoberto eleitor do Bolsonaro, e cuja única
reação cabível diante de tamanha decepção só poderia ser o corte completo do
vínculo, que já se havia anulado ao apertar o botão da urna eletrônica.
Felizmente,
eu não carrego essa culpa eleitoral. Mesmo assim, foi como se a Milena tivesse
acreditado na fake news que espalharam sobre mim. Como se, em
2018, eu tivesse votado na carrocinha.
É
impossível saber como vamos agir ou reagir a algo até que aconteça. Viver é
imprevisível. O que parece não é o que é. Brincamos de imaginar que sempre
vamos agir X e batemos o pé afirmando que nunca reagiríamos Y, mas na hora H
tomamos a direção Z. E a direção Z é que diz tudo sobre nós. Isso acontece
porque a realidade cozinha nossas convicções sob pressão. Nas escolhas que fazemos
sob pressão é que se revela nossa verdadeira natureza.
Mais
de três anos aprofundando conhecimentos e praticando a não monogamia, descubro
que ainda existe uma camada de possessividade cobrindo a minha pele. Um
personagem que, embaixo da minha superfície, barganhou o afeto, apostou tudo no
rótulo que a dona da Zuzu (nem ouso mais chamá-la de Milena) me deu. De que me
vale esse rótulo agora que nosso compromisso se encerrou?
O
tempo quis provar seu ponto e está rindo de mim. O tempo ri de todos que
acreditam ser possível garantir afeto, seja como for, seja de quem for, de uma
pessoa ou até mesmo da gata pretinha da vizinha.
Desde
então, a calçada está repleta de ausência.
O tempo atravessou a rua quando me viu passar.
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