fulano 👻

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Ser não-monogâmico e praticante da anarquia relacional é deixar escapar o nome de uma pessoa durante uma conversa em aplicativos de paquera, sem utilizar rótulos, e ser atingido pela pergunta:

— Quem é Fulano?

Antes de querer problematizar qualquer coisa, aviso: não vejo problema nenhum com a pergunta, mas o contexto importa. Fulano apareceu uma única vez numa mensagem longa sobre meus planos de fim de semana. Mas nada interessou tanto à pessoa com quem eu conversava quanto descobrir quem era Fulano.

— É alguém que eu conheço. – respondi. Ora, quem mais poderia ser?

— Pensei que fosse seu namorado. – ele confessou.

— Pode ser, pode não ser. Ainda assim, continua sendo alguém que eu conheço.

Ele disse que entendeu e digitou uma quantidade exagerada de letras “k”, como se quisesse maquiar a frustração de não saber com exatidão o espaço que Fulano ocupa na minha vida. Namorado? Amigo? Marido? Ficante? Ficante premium? Ele não queria saber "quem" era Fulano, mas "o que" era Fulano. Percebe-se aí o imenso poder e privilégio contidos em um rótulo, uma das chave-mestras que opera as engrenagens invisíveis do sistema monogâmico.

A monogamia não se resume à escolha de se relacionar com uma única pessoa. Ela é uma forma sofisticada — para não dizer cruel — de organizar e hierarquizar todas as nossas relações. Um simples rótulo entrega tudo: nível de intimidade, tipo de afeto, desejo e até o valor que somos ensinados a dar às pessoas.

(Vale um parêntese: estou comentando apenas a monogamia no contexto das relações afetivas. Sequer toquei no fato desse sistema articular opressões em outros campos das nossas vidas. Mas sigamos.)

Imagine só se eu rotulasse Fulano como meu Namorado®. Ele subentenderia que meu afeto é exclusivo — afinal, a monogamia é contrária aos ensinamentos de Jesus e não admite “repartir o pão” — e o tacharia como a pessoa com quem eu faço sexo. Talvez cogitasse até encerrar a conversa: “Se você tem namorado, o que está fazendo aqui? Ele sabe? Não quero ter nada a ver com isso.” E eu acabaria bloqueado. Seria um alívio, confesso.

Ou se eu dissesse que Fulano é APENAS meu Amigo® — ênfase no “apenas”, pois a amizade é sistematicamente relegada a um degrau inferior na escada afetiva monogâmica, como se a ausência de sexo e romance a tornasse uma conexão de “menor valia” —, Fulano não representaria risco. A conversa continuaria.

Cada rótulo carrega um manual de regras não escritas: dita o valor das pessoas, o que sentir e como agir nas conexões que construímos. Até mesmo o rótulo de Mãe®, colocado no pedestal monogâmico, acaba ficando em segundo plano diante do Ficante® que alcança a posição de pessoa que te escolhe, te assume e promete mundos e fundos, com a frágil garantia simbólica de um anel no dedo, vulgo Marido®/Esposa®.

Não é nada fácil sustentar conversas em aplicativos. As abordagens são padronizadas, as mesmas perguntas protocolares de sempre. Com estratégia e criatividade, eu tento facilitar a aproximação. Escrevo uma descrição que reflita quem sou de verdade e o que podem esperar de mim — “Meu beijo é longo, meus abraços são apertados, minha companhia é agradável” —, mas nem sempre funciona. Recebo elogios, sim, mas quase ninguém tem nada a oferecer; só querem extorquir meu afeto.

Cansado, decido inverter o jogo:

— Você é monogâmico, né? – provoquei.

Ele responde:

— Eu não me defino em relação a isso. Depende do relacionamento e do momento. Não sei como será o futuro.

Seria uma “monogamia fluída”? Essa é boa. A resposta evasiva não me surpreende e chega a soar hipócrita. É fácil querer que eu defina a função de Fulano na minha vida, mas ele mesmo prefere usufruir da liberdade de não se definir.

— Por quê? – ele pergunta.

— Porque se você for mesmo monogâmico, eu prefiro encerrar nossa interação por aqui.

E eu acabei bloqueado. Ufa! Que alívio.

E Fulano segue lá: tranquilo e confortável com o anonimato. Ele não precisou dizer nada, nem aparecer. Bastou existir como um fantasma para expor os limites desse sistema, que é incapaz de experimentar afetos não catalogados, e revelar que o que ameaça não é Fulano em si, mas a impossibilidade de nomeá-lo fora dos rótulos.

No fim, Fulano é todos e ninguém.

Comentários

  1. Adorei a reflexão, muito me chamou a atenção, sobretudo a parte "Eu não me defino em relação a isso. Depende do relacionamento e do momento. Não sei como será o futuro". Me lembrou muito o que muitos dizem sobre como se comportar em uma entrevista de emprego se te perguntarem algo que você não saiba fazer, nunca diga que não sabe, mas diga que esta aberto a aprender e aprende rápido, porque você não pode perder essa vaga de emprego. Ou seja a monogamia segue um roteiro extremamente egoísta. Fulano percebendo que poderia perder foi rapido na resposta em deixar vago para não perder a "vaga" mostrando uma falta de responsabilidade afetiva, porque tornou a conversa e a possibilidade de relação totalmente superficial. E isso na verdade ja estava claro no início da conversa ao perguntar quem é Fulano?!

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    Respostas
    1. Sua comparação foi muito perspicaz! Faz todo sentido. A pessoa com quem eu conversava não quis se comprometer com uma resposta verdadeira, porque teve medo de “perder a vaga”. A monogamia se baseia mesmo na competição, transformando aquilo que devia ser sobre presença e afeto numa disputa para saber quem consegue alcançar o lugar mais privilegiado no coração e na vida do outro. E para isso vale mentir, negociar, trapacear – tudo em nome de uma estratégia desonesta. Gracias pelo comentário, Ana! ✨

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