porto seguro ⚓

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Adoro quando elogiam minha comunicação ou quando dizem que é bom conversar comigo
. Nesses momentos, cai a ficha de que realmente cresci e deixei de ser o garotinho tímido que mal conseguia responder olhando nos olhos das pessoas — ou o adolescente que, quando perguntavam se estava bem, escrevia os sentimentos em um caderno, entregava para a pessoa e saía correndo em seguida, porque não sustentava a coragem de se sentir vulnerável.  

Minha comunicação deu um belo salto, daqueles triplo carpados. E foi por meu próprio mérito. Aprendi a falar e a ouvir. Aprendi a tornar interessante a experiência de conversar comigo. Aprendi a criar pontes com minhas palavras. É nítido como isso transformou meus relacionamentos, ao ponto de receber com frequência esse tipo de elogio.  

Infelizmente, também é muito comum eu me sentir usado pelas pessoas, justamente por toda essa capacidade que desenvolvi com muito esforço. Há quem monte em cima de mim e se aproveite do quanto sou capaz de me interessar pelos seus assuntos. Há quem só me procure para desabafar suas tristezas, porque sabe que minhas palavras acolhem com empatia. Há quem se sinta confortável em se esforçar pouco para se relacionar comigo, porque sabe que sempre vou tentar mediar qualquer impasse da melhor forma possível. Ter esse tipo de amizade, afeto e atenção pode ser muito vantajoso — principalmente quando a pessoa se mostra tão disposta e disponível como eu.  

Engraçado perceber que aquilo que me fez forte também me fez alvo. Eu me tornei um porto seguro — para os outros. Minha empatia virou um serviço gratuito; minha escuta, um descarregador de emoções; minha diplomacia, um atalho. E fico com a clássica pergunta: quem faz o palhaço rir?

Já aprendi a falar e já aprendi a ouvir. Agora, só me falta aprender a dosar minha generosidade. Porque sou humano, e meus recursos não são infinitos. A reciprocidade existe para que a gente abasteça o outro com a mesma atenção e interesse que ele nos oferece, e não tratá-lo como um poço do qual se pode beber até esvaziá-lo. A troca não precisa ser exatamente igual, mas, com certeza, precisa ser justa.  

Esse é o próximo salto (mais ousado que o triplo carpado) que preciso dar — tomando cuidado para não fechar meu coração, direcionando minha energia para quem sabe valorizá-lo, criando pontes e permitindo que só pisem nelas quem for sensível o suficiente para andar de mansinho. Porque um porto seguro também precisa de manutenção.

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