oráculo 🔮
"Tô vendo aqui que você não precisa ficar triste", ele constatou. "Sabe aquela linha? Ela diz que você ainda vai encontrar o amor."
Olhei para ele com desconfiança, através da tela do celular. Seus olhos percorriam as linhas da minha mão como quem decifra enigmas antigos, mas eu sabia que eram apenas evidências óbvias fantasiadas de revelação. Fingir que acreditava não era tão difícil. Afinal, suas palavras soavam como o unguento exato para meu coração ferido. Mas lembrando que a diferença entre remédio e veneno é a dose ingerida, precisei desconfiar.
Meu ceticismo começou no instante em que ele pediu uma foto da minha palma direita. Estávamos a quilômetros de distância e, ainda assim, ele dizia ter acesso às camadas mais sutis da minha vida a partir de um retrato em pixels. Como um médico que sequer toca o paciente, ele diagnosticava meu futuro e receitava pílulas de sabedoria leve o bastante para anestesiar, mas rasa demais para me curar.
Na minha ingenuidade e sentimentalismo místico, achei que era preciso sentir a pele, acompanhar o fluxo dos batimentos, tocar a textura dos sulcos para chegar perto de alguma verdade. Sem entender nada, me perguntava: como alguém pode compreender um ser complexo apenas pelo formato, espessura , profundidade e cruzamento das linhas da mão? E se, por ironia, eu tivesse enviado a palma de outra pessoa, ele notaria? Ou repetiria a mesma receita, válida para qualquer coração em prantos?
Não me assusta tanto o cruzamento entre espiritualidade e tecnologia, mas sim a falta de tato entre nós, humanos. A máquina já imita em partes o funcionamento orgânico de algumas coisas, mas não conhece ainda a medida do afeto, a força exata de um toque, a sensibilidade da pele. Essa é, talvez, a maior tecnologia que carregamos de fábrica no corpo. Minha mãe, por exemplo, pareava a mão com a minha testa e os sensores na sua pele concluíam: "Sim, você tá com febre. Vai precisar de dipirona." Precisa e certeira em sua humanidade magicamente tecnológica.
Se não fosse a distância entre Arujá e a zona sul de São Paulo, eu colocaria a cabeça no colo da minha mãe agora, só para sentir seu toque de carinho curando toda dor, sem precisar de palavras. Talvez essa seja a diferença entre minha mãe e o oráculo: ela nunca me diria algo tão genérico quanto "não fica triste, você ainda vai encontrar o amor".
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