superprotegido 💆
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Ontem, fiz Lindinha, Biel e Marcelo jogarem Isso Não É Um Jogo comigo. Vi o baralho jogado na mochila, que fiz para passar o fim de semana com a minha mãe, e fiquei doido para deixar meu irmão sem graça com umas perguntas bem íntimas, rsrs. Foi assim que surgiu a pergunta:
Se você pudesse mudar qualquer coisa na maneira como você foi criado, o que você mudaria?
Sem pensar muito, respondi que, se pudesse mudar algo na minha criação, escolheria não ter sido superprotegido pela minha mãe. Desde cedo, ela sabia que eu era uma criança viada, porque eu tinha os mesmos trejeitos do tio dela, que era gay. Ele foi rejeitado pela família e morreu de forma trágica, sozinho, vítima da AIDS.
Minha mãe amava muito esse tio. O medo de que eu passasse pelo mesmo a assustou, ainda mais porque morávamos com meu pai, que na época era uma pessoa muito diferente (e não no bom sentido). Ela tinha receio de que ele percebesse meu jeito e reagisse com preconceito ou violência.
Então, como toda mãe preocupada, ela tentou me proteger. Ela me mantinha dentro de casa, ajudando nos afazeres domésticos, enquanto meus irmãos pegavam no pesado com meu pai, que é pedreiro. Só que, ao me poupar de algumas dores do mundo, acabou me privando de experiências que poderiam ter me ensinado a ser mais forte e independente. E, no final, criou outros desafios que mais tarde eu precisei enfrentar sozinho. Esse é o paradoxo da superproteção.
Para quem vê de fora, pode parecer que ela tinha um filho favorito e o amava mais do que aos outros filhos. Mas só quem já viveu isso sabe o preço que se paga. Cresci cheio de inseguranças, dependente emocionalmente e com dificuldades para lidar com a vida por conta própria. Até os 20 e poucos anos, eu não sabia nem comprar minhas próprias roupas e muito menos ser a referência de irmão mais velho que eu gostaria de ter sido.
Foi um ato de amor sim, mas um amor que nasceu do medo e da preocupação. Um amor que me limitou em muitas coisas. Se eu pudesse mudar algo, escolheria ter crescido como um LGBT mais independente, confiante e responsável.
Pode parecer que estou lamentando, mas, na verdade, é um compromisso que tenho assumido comigo mesmo há anos. E, se um dia eu precisar proteger alguém, quero fazer isso de um jeito que não sufoque, mas fortaleça.
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