abafada, monótona e solitária ☁️
NS1.37.8.17.231
Ao descartar o lixo, decido sentar ao ar livre para desenhar sob a luz dos postes da rua. Tem um ventinho soprando. Ar-condicionado da natureza.
Registro o momento com lápis de cor. Eu adoro a textura. Me desenho sentado fazendo exatamente aquilo que estou fazendo: um desenho de mim mesmo desenhando um desenho. Paradoxo?
Observo a conversa do vizinho, que levou seu cachorro para passear, com uma velha fofoqueira. Eles comentam sobre o clima, que choveu forte em algum lugar (novidade?).
A vibe é parecida com as noites de verão da Bahia, mas sem a euforia das crianças ocupando a rua às 22h da noite. A calçada era um fervo de risadas e brincadeiras e eu realmente sentia que a noite é uma criança.
Termino o meu desenho e fico esperando alguma coisa acontecer. Vivenciar o tédio numa sociedade que cobra produtividade constante é angustiante, sem falar no fator "rede social".
Agora, a vida real é como uma timeline que não carrega conteúdos novos. Ficamos ansiosos por aquela descarrega de dopamima para nos fazer sentir alguma coisa. Qualquer coisa. A gente vive na expectativa de alguma notificação da vida e...
Um gato. Largo meu sketchbook na calçada e tento me aproximar dele, ou melhor, dela. É aquela gatinha que adora um tapa na bunda, um carinho mais intenso. Sei disso porque ela força o rostinho contra a minha mão e se mexe enlouquecidamente esperando a próxima alisada no seu pelo tricolor.
Depois da gata, vejo um doguinho, ou melhor, uma doguinha. (As fêmeas estão representando nessa noite.) É a Shiva latindo no portão. Ela me reconhece e fica toda meiga quando lhe passo a mão. Ela é um doce mesmo.
Volto para a calçada. Continuo a observar a vida acontecendo. Nada acontece. Pelo menos, nada que seja relevante para a minha existência, porque, se reparar bem, tem muita coisa acontecendo na verdade.
Aquela gatinha tentou caçar um rato. Os entregadores em suas motos sobem e descem as ladeiras. Os crentes voltam do culto e comentam sobre a pregação. Consigo ouvir o som da água correndo nos encanamentos – alguém em algum banheiro acabou de dar descarga. Tem uma teia de aranha bem construída entre os fios do poste perto de mim, e um inseto caminha no fio de cima.
Tem muita coisa acontecendo ao meu redor. Como nada é sobre mim, é como se a vida não fizesse sentido. Queremos ser relevantes para algo ou alguém, mas há dias que parece que um dublê ou outro personagem assumem o nosso papel, ou que simplesmente não temos relevância para aquilo que está acontecendo no momento – seja para o gato, o rato, o cachorro, os motoqueiros, os crentes, os cagões, a aranha, o inseto... A vida acontece a despeito de nós. Isso devia me trazer paz ou aflição? Liberdade ou solidão?
Eu sou só um ponto de vista e, de onde vejo, nada importa. E acho que justamente por nada importar é que sou feliz, pois posso dar o sentido que eu quiser a esse momento.
Aquela gata adorou o meu carinho e a Shiva também. Os entregadores fizeram um ótimo trabalho; cinco entrelas. Torço para que os crentes abram seus olhos. Aos cagões, nada melhor que o prazer de cagar. Que as aranhas fisguem suas presas, e que os insetos sobrevivam.
Que a vida apenas seja.
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